Textos inéditos
A epidemia do tabagismo e a ameaça dos dispositivos eletrônicos, de Anna Beatriz Monteiro Vieira

Há algumas décadas, o consumo de cigarros era extremamente presente na sociedade, sendo retratado em muitos filmes, comerciais e propagandas como um hábito positivo. De acordo com dados da revista Super Interessante, durante os anos 80, mais de 180 atores e diretores receberam uma comissão para incluir o cigarro nos filmes e, na década de 90, entre os 250 longa-metragens americanos mais populares, 87% deles mostrava alguém fumando. Entretanto, apesar de tal valorização, o cigarro impactava (e ainda impacta) de maneira direta, na ocorrência de diversas doenças e na morte de milhões de pessoas por ano.
Quando a relação entre o consumo de tabaco e a ocorrência de doenças, como o câncer de pulmão, foi evidenciada e tornou-se claro que, em nome do bem-estar da população, era necessário combater o tabagismo, diversas medidas foram colocadas em prática. Um dos instrumentos de controle mais importantes a serem citados é o MPOWER, um plano previsto na Convenção-Quadro para Controle do Tabaco (CQCT), feito pela Organização Mundial da Saúde para reverter a epidemia do tabagismo. As medidas incentivadas pelo relatório atuam na monitoração do uso do tabaco e medidas preventivas; na proteção das pessoas da fumaça do tabaco; no oferecimento de ajuda para parar de fumar; no alerta sobre os perigos do tabaco; na aplicação de proibições de publicidade, na promoção e patrocínio e no aumento de impostos sobre o tabaco.
De acordo com o “WHO report on the global tobacco epidemic 2021: addressing new and emerging products”, houveram avanços significativos na luta contra o tabaco no mundo, podendo destacar que aproximadamente 5,3 bilhões de pessoas estão agora cobertas por pelo menos uma das medidas MPOWER – mais de quatro vezes a quantidade registrada em 2007. Além disso, ainda segundo o documento da OMS, mais de 50% de todos os países e metade da população mundial estão agora cobertos por pelo menos duas medidas MPOWER no mais alto nível de desempenho. Entretanto, o relatório também aponta que muitos países não estão tratando com a devida seriedade os novos produtos de nicotina e tabaco, que estão se tornando cada vez mais populares, sobretudo, entre os jovens.
O relatório aborda, pela primeira vez, os dispositivos elétricos para fumar – como os cigarros eletrônicos, vaporizadores e cigarros de tabaco aquecido – e indica que tais produtos são bastante direcionados para crianças e adolescentes pelas indústrias que os produzem. A fim de atrair o público mais jovem, os fabricantes utilizam sabores e aromas agradáveis e se apoiam em alegações falsas de que tais dispositivos são menos nocivos para a saúde, quando comparados ao cigarro normal.
Em vista disso, a Organização Mundial da Saúde demonstra, no documento, uma preocupação com o fato de que crianças que fazem uso de tais produtos estão mais suscetíveis a consumirem tabaco no futuro. Assim, o órgão recomenda que os governos regulamentem medidas para impedir que esses produtos sejam utilizados por não-fumantes e, com isso, que não se tenha uma “renormalização” do tabagismo nas próximas gerações.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) não são seguros e possuem substâncias tóxicas, sendo a nicotina apenas uma delas. Nesse sentido, eles também podem causar doenças respiratórias, como o enfisema pulmonar, doenças cardiovasculares, dermatite e câncer.
Nota-se, portanto, que apesar de muitos avanços terem sido alcançados no combate ao fumo ao longo das últimas décadas, a popularidade dos novos dispositivos está crescendo e é essencial que medidas sejam implementadas para combater o seu consumo. A fim de garantir que o tabagismo não se torne, novamente, um hábito comum na população, acredito que um papel ativo do governo seja necessário, tanto na propagação – por meio da atuação do Ministério da Saúde – dos reais impactos negativos dos dispositivos eletrônicos na saúde de seus usuários, quanto no aumento de impostos cobrados sobre tais produtos. Além disso, considerando o alcance dos influenciadores digitais, penso que seria extremamente interessante que o governo se aliasse a algumas personalidades conhecidas nas redes sociais para promover campanhas de conscientização e combate ao tabagismo.
Referências
OPAS. Organização Pan-Americana de Saúde. OMS relata progresso na luta contra epidemia de tabaco e destaca ameaça representada por novos produtos. Disponível em:
OPAS. OMS relata progresso na luta contra epidemia de tabaco e destaca ameaça representada por novos produtos. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/27-7-2021-oms-relata-progresso-na-luta-contra-epidemia-tabaco-e-destaca-ameaca. Acesso em 05/10/21
Saúde Brasil. Mentiras e verdades sobre o cigarro eletrônico. Disponível em:
Saúde Brasil. Mentiras e verdades sobre o cigarro eletrônico. Disponível em: https://saudebrasil.saude.gov.br/eu-quero-parar-de-fumar/mentiras-e-verdades-sobre-o-cigarro-eletronico. Acesso em 05/10/21
Super Interessante. Ascensão e queda do tabaco. Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia/ascensao-e-queda-do-tabaco/. Acesso em: 05/10/21