Textos inéditos
A normalização do caos, de Guilherme Affonso Salles Pereira

Nas últimas semanas, o streaming Amazon Prime lançou a segunda temporada da série “Modern Love”. Nela, cada episódio conta uma história diferente inspirada em amores da vida real. O terceiro capítulo nos apresenta a história de Paula (Lucy Boynton) e Michael (Kit Harington), duas pessoas, inicialmente estranhas entre si, que viajavam em um trem para Dublin. Conforme a história é contada, percebemos que se passa, temporalmente, no mês de março de 2020, início da pandemia do Covid-19. Esse fato fica ainda mais claro quando os personagens começam a conversar e se questionam coisas como “quando tempo você acha que isso vai durar?”, e a resposta sempre era “minha faculdade/emprego deu duas semanas de afastamento, então provavelmente quinze dias”.
Ao fim da viagem, os dois, agora apaixonados, decidem não trocar números ou endereços, mas sim, marcar de se encontrar em exatas duas semanas naquela plataforma de trem e voltar juntos para as cidades em que estudam e trabalham, visto que esse era o prazo esperado para o fim da pandemia. Chegado o grande dia, nenhum dos dois conseguiram chegar à estação, pois na cidade existiam vários bloqueios sanitários que não permitiam a circulação de pessoas além de dois quilômetros de suas residências.
Quando assisti a esse episódio, fiquei pensando sobre como as medidas tomadas para tentar evitar a transmissão do vírus da COVID-19, no início, eram muito mais intensas do que hoje. No Brasil, não foram tomadas medidas, como na Irlanda, que impediam as pessoas de se afastarem a determinada distância de suas casas – exceto em algumas poucas cidades como Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde, por algumas semanas, era necessário possuir um documento que explicasse a saída caso um policial realizasse abordagem, ou ainda, em menor número, em cidades como Araraquara, também no interior de São Paulo, em que houve lockdown por alguns dias- mas certamente foram feitas outras, principalmente provenientes de outras autoridades que não a central, como governos estaduais e municipais. Como esquecer o fechamento de lojas, bares e restaurantes? O cancelamento de todas as cirurgias eletivas, dos voos nacionais e internacionais e até viagens de ônibus interestaduais? Me lembro de colegas que ficaram presos em São Paulo por conta das fronteiras com o Rio de Janeiro estarem fechadas. E tudo isso em um momento em que as médias de mortes diárias eram de dezenas, centenas de pessoas no país.
Meses se passaram e o número de óbitos diários foi crescendo e crescendo, alcançando a triste marca de milhares. Entretanto, em um movimento paradoxal, o que também parece que passou foi o medo de grande parte das pessoas. As mesmas que tinham medo de abrir as janelas de casa por pensar que o vírus poderia entrar com o vento, agora saem de casa por lazer, para ir a lojas, bares e restaurantes, que tão pouco seguem impedidos de funcionar, graças às flexibilizações. A vontade de passar o feriado na praia não mais é um sonho distante por conta do vírus, mas um plano real que levou o Departamento de Estradas e Rodagens (DER) a prever cerca de 806 mil veículos em direção à Baixada Santista no feriado de Independência do Brasil.
Tendo isso em vista, podemos estabelecer uma ligação direta, também, com as medidas de contenção do vírus tomadas pelos governos, ou melhor, não tomadas. O fato do líder principal da nação constantemente negar ou menosprezar o perigo da doença e ser publicamente contra quaisquer medidas sanitárias que visem diminuir o contágio passa a ideia de que o país está bem e protegido, e que não há problema em se aglomerar em bares, por exemplo.
Por fim, é esperado que, com o avanço da vacinação e, consequentemente, da ampliação da imunidade da população, possamos retornar cada vez mais para a vida pré-março 2020. Mas o fato é que centenas de pessoas continuam perdendo suas vidas por conta do vírus da COVID-19 todos os dias em nosso país e isso não mais impede que algumas pessoas saiam de casa a lazer. Nesse sentido, o questionamento que faço é: as pessoas realmente acreditam estar protegidas pelas vacinas e, por isso, perderam o medo, ou apenas, independentemente do motivo, normalizaram o caos em que vivemos?
Referências
BRASIL tem 296 mortes por Covid-19 em 24 horas; média móvel de óbitos está em queda há 14 dias. G1, 2021. Disponível em https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/09/06/brasil-tem-296-mortes-por-covid-19-em-24-horas-media-movel-de-obitos-esta-em-queda-ha-14-dias.ghtml . Acesso em 07 de set. de 2021
CHAVES, Karla. Após lockdown, Araraquara não registra mortes por Covid-19 em 24 horas. CNN Brasil, São Paulo, 26 de mar. de 2021. Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/apos-lockdown-araraquara-nao-registra-mortes-por-covid-19-em-24-horas/ . Acesso em 09 de set. de 2021.
COM lockdown, sair de casa será permitido em 5 situações. A cidade on, 2021. Disponível em https://www.acidadeon.com/ribeiraopreto/cotidiano/cidades/NOT,0,0,1592267,com-lockdown-sair-de-casa-sera-permitido-em-5-situacoes.aspx . Acesso em 09 de set. de 2021.
SP: 1º feriadão com praias liberadas deve ter 4,5 milhões de carros nas estradas. Isto é dinheiro, 2021. Disponível em https://www.istoedinheiro.com.br/sp-1o-feriadao-com-praias-liberadas-deve-ter-45-milhoes-de-carros-nas-estradas/. Acesso em 07 de set. de 2021.
Ventura D. et al. (2021) The catastrophic Brazilian response to covid-19 may amount to a crime against humanity. BMJ Opinion. April. https://blogs.bmj.com/bmj/2021/04/05/the-catastrophic-brazilian-response-to-covid-19-may-amount-to-a-crime-against-humanity/