Textos inéditos
A Peste e o Estrangeiro: a estigmatização do Outro durante crises de saúde, de Gabriel Alegria dos Santos Reis

A pandemia do COVID-19 está atrelada a um aumento de ataques sinofóbicos pelo Ocidente. Estudos apontam um crescimento exponencial de atos de violência e discriminação contra as populações amarelas nos EUA, acompanhado por significativo impacto econômico sobre seus negócios (Tessler, Choi e Kao, 2020; Kim e Shah, 2020; Zhang, 2021). Especulações sobre a o papel da China na disseminação do vírus, incluindo a teoria de que a pandemia teria origem em uma arma biológica chinesa, ganharam grande repercussão não só no âmbito popular, mas também na imprensa (Zhang, 2021). Mesmo altas autoridades políticas, como o ex-presidente Donald Trump (Kim e Shah, 2020) e o senador Eduardo Bolsonaro (Bolsonaro, 2020), engajaram com uma narrativa de culpabilização de Beijing e em ataques contra populações etnicamente chinesas.
O fenômeno faz parte de uma longa história da criação de bodes-expiatórios durante crises de saúde. Dos judeus na Peste Negra da Europa Medieval aos chineses durante a COVID-19, essa narrativa perpassa séculos de discriminação nas mãos da mídia, da ciência e da maioria, recaindo de forma violenta sobre membros de comunidades já estigmatizadas e marginalizadas (Tessler, Choi e Kao, 2020; Kim e Shah, 2020; Joffe e Haarhoff, 2002; Farmer, 1996; Eamon, 1998; Markel e Stern, 2002; Eichelberger, 2007). Corpos aparentemente estrangeiros, em particular, são frequentemente feitos de bodes-expiatórios no Norte Global – na medida em que se atrela à ideia de saúde uma noção de modernidade e civilização, latinos, asiático e africanos são associados à barbaridade, sujeira e atraso (Crawford, 1994; Eichelberger, 2007; Markel e Stern, 2002; Eamon, 1998; Farmer, 1996; Joffe e Haarhoff, 2002; Zhang, 2021).
O fenômeno coloca em oposição as noções do “Eu” e do “Outro”. Constrói-se entre os dois uma muralha de diferenças culturais e tecnológicas, que busca atribuir ao Outro a responsabilidade pela doença, ao engajar em uma série de comportamentos inadequados, e ao Eu uma posição de superioridade e modernidade (Crawford, 1994; Farmer 1996; Joffe e Haarhoff, 2002; Eamon, 1998; Eichelberger, 2007). Essa muralha permite ao Eu uma sensação de segurança contra essa ameaça invisível e incontrolável, localizando-a no outro, no estrangeiro (Crawford, 1994; Kim e Shah, 2020; Joffe e Haarhoff, 2002). Como Crawford (1994, p. 1356) afirma: “O doente não é apenas tornado responsável por seu male, mas também tornado diferente. A pessoa que está momentaneamente livre da doença é então reassegurada, ela não é como aqueles estão doentes.”
Além desse sentimento de proteção, autores também apontam para uma necessidade de restabelecer controle. Encarados por uma situação ameaçadora e virtualmente indomável, atribuir a responsabilidade ao Outro permite ao Eu uma maior sensação de domínio sobre a situação (Rothschild et al., 2012; Eamon, 1998; Eichelberger, 2007). Diferente de vírus, bodes-expiatórios podem ser facilmente identificados, compreendidos e o riscos que eles impõem, neutralizados (Rothschild et al., 2012).
Apesar do processo ser antigo, a mídia de massa ocupa papel central no seu funcionamento contemporâneo. Capaz de reproduzir ideias de forma inigualável, ela transformou de maneira irreversível a forma como entendemos e lidamos com doenças, ao servir de ponte de tradução – ou distorção – entre o mundo leigo e o científico (Joffe e Haarhoff, 2002; Markel e Stern, 2002). Longe da construção de uma democracia discursiva ou um embate de ideias, Joffee e Haarhoff (2002) apontam como a imprensa busca confirmar concepções já existentes entre seus públicos: refletir suas visões sobre o Eu e responsabilizar o Outro por elementos que o ameacem. Portanto, desde o final do século XIX, a imprensa se tornou veículo para a reprodução de narrativas epidemiológicas violentas contra imigrantes, principalmente aqueles entendidos como fora do universo da branquitude (Zhang, 2021; Joffe e Haarhoff, 2002).
A adoção ampla de mídias sociais tornou esse processo ainda mais acelerado e perigoso. Enquanto a disseminação de discursos discriminatórios e notícias falsas pela internet já havia sido identificado durante a Epidemia de SARS de 2002-2004, o crescimento de sua capilaridade aumentou o seu impacto de maneira ainda pouco mensurada (Eichelberger, 2007; Zhang, 2021; Tessler, Choi e Kao, 2020). Mesmo assim, como Zhang (2021) aponta, existem dados o suficiente para mostrar as implicações reais da normalização de retórica xenofóbica online, incluindo no que tange o crescimento de ataques violentos contra minorias étnicas.
Não podemos, entretanto, culpabilizar somente a mídia e o público pela reprodução de discursos xenofóbicos no que tange a proliferação de doenças. Também a própria academia toma papel relevante nesse processo, não só num passado da eugenia e de miasmas, mas até hoje. Farmer (1996) aponta como a elite acadêmica norte-americana e as autoridades de saúde dos Estados Unidos engajaram em ampla especulação pseudocientífica, mobilizando discursos exoticistas e racistas, para alocar sobre os haitianos a responsabilidade pela chegada da epidemia do HIV/AIDS nos EUA, durante a década de 1980. Ele demonstra como argumentações com pouca evidência científica receberam respaldo, ligando o vírus ao Haiti na base de hipóteses envolvendo ritos vudu, ingestão de sangue de animais sacrificados, consumo de carne de gato e ritos homossexuais. Hoje em dia, as pesquisas apontam que, ao contrário, o vírus teria chegado ao país caribenho justamente a partir dos EUA.
Não podemos ignorar o impacto desse tipo de discurso. Existem os já citados: discriminação, violência, assédio e perda econômica para os grupos estigmatizados. Mas, além disso, como Eichelberger (2007) aponta, o fenômeno pode gerar perigosa normalização da permanência de doenças entre grupos estigmatizados, o investimento para trata-las se justificando somente caso arrisquem atingir o Norte Global. Quando a mudança cultural é apresentada como solução para a saúde, a atenção está sendo divergida da pobreza, da falta de saneamento e da sistêmica deterioração de sistemas de saúde. Trabalhar para a melhoria da saúde a nível global também deve ser trabalhar para superar a criação de discursos violentos e estigmatizantes do universo epidemiológico.
Referência:
BOLSONARO, E. Quem assistiu Chernobyl vai entender o q ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura… 18 de mar. de 2020. Twitter: @BolsonaroSP. Disponível em: <https://twitter.com/BolsonaroSP/status/1240286560953815040>. Acesso em: 10 de out. de 2021.
CRAWFORD, R. The boundaries of self and the unhealthy other: reflections on health, culture and AIDS. Social Science & Medicine, v. 38, n. 10, p. 1347-1365, mai. 1994.
EAMON, W. Cannibalism and Contagion: Framing Syphilis in Counter-Reformation Italy. Early Science and Medicine, v. 3, n. 1, p. 1-31, 1998.
EICHELBERGER, L. SARS and New York’s Chinatown: The politics of risk and blame during an epidemic of fear. Social Science & Medicine, v. 65, n. 6, p. 1284-1295, set. 2007.
FARMER, P. SIDA et racisme : les accusations venues du centre. In:____. SIDA en Haïti : La victime accusée. Paris: Les Éditions Karthala, 1996, p. 263-288.
____. La cause et les accusations. In:____. SIDA en Haïti : La victime accusée. Paris: Les Éditions Karthala, 1996, p. 308-318.
JOFFE, H.; HAARHOFF, G. Representations of far-flung illnesses: the case of Ebola in Britain. Social Sciences & Medicine, v. 54, n. 6, p. 955-969, mar. 2002.
KIM, G.; SHAH, T. When Perception Are Fragile But Also Enduring: An Asian American Reflection on COVID-19. Journal of Humanistic Psychology, v. 60, n. 5, p. 604-610., 2020.
LYNTERIS, C. Yellow Peril Epidemic: The Political Ontology of Degeneration and Emergence. In: BILLÉ, F.; SOREN, U. (org.). Yellow Perils: China Narratives in the Contemporary World. Honolulu: University of Hawaii Press, 2018.
MARKEL, H.; STERN, A. The Foreignness of Germs: The Persistent Association of Immigrants and Disease in American Society. The Milbank Quarterly, v. 80, n. 4, p. 757-788, 2002.
ROTHSCHILD, Z.; LANDAU, M.; SULLIVAN, D.; KEEFER, L. A Dual-Motive Model of Scapegoating: Displacing Blame to Reduce Guilt or Increase Control. Journal of Personality and Social Psychology, v. 102, n. 6, p. 1148-1163, abr. 2012.
TESSLER, H.; CHOI, M.; KAO, G. The Anxiety of Being Asian American: Hate Crimes and Negative Biases During the COVID-19 Pandemic. American Journal of Criminal Justice, v. 45, p. 636-646, 2020. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7286555/>. Acesso em: 10 de out. de 2021.
ZHANG, D. Sinophobic Epidemics in America: Historical Discontinuity in Disease-related Yellow Peril Imaginaries of the Past and Present. Journal of Medical Humanities, v. 42, n. 1, p. 63-80, fev. 2021.