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GT Acordo sobre Pandemias e Reforma do RSI

Textos inéditos

A produção e consumo desenfreado de proteína animal e as pandemias, de Amanda Goncalves Machado

Autoria: Amanda Goncalves Machado

A produção e consumo desenfreado de proteína animal e as pandemias

Antes de qualquer coisa, gostaria de ressaltar que este não é um post demonizando o consumo de carne ou necessariamente focado no veganismo. Meu foco aqui será explorar a relação da indústria da proteína animal para com as pandemias passadas, a pandemia presente e as possíveis futuras que atingirão a humanidade.

Com a eclosão da Covid-19 e a posterior especulação (já questionada) de sua origem relacionada ao “mercado úmido” de Wuhan, os olhos do mundo se voltaram ao papel de mercados de animais para consumo, revoltados com a possibilidade do consumo indevido da carne de um pangolim ter levado a um desastre de proporções tão grandes quanto a pandemia de Covid-19.

Apesar da elevada atenção midiática dada ao tópico após a disseminação do Sars Cov 2, não foi a primeira vez que a produção em massa, comercialização ilegal e consumo desenfreado de proteínas animais impulsionou o surgimento de um surto de saúde pública. Na obra “Pandemias, saúde global e escolhas pessoais”, pesquisadores brasileiros demonstram a relação entre a produção e consumo de animais em surtos como o do Ebola, H1N1 e HIV. Segundo os dados levantados, o Ebola provavelmente teria surgido da caça de morcegos, o HIV da caça de macacos e o contágio pelo H1N1 teria sido facilitado pela suinocultura em massa.

O amplo contato entre seres humanos e animais, via caça, criação e/ou consumo, favorece ambientes propícios para o surgimento de novas doenças e para a propagação de patógenos desses animais para a espécie humana. No caso da Covid-19, sua eclosão também seguiu a mesma suspeita de origem. Ao comentar sobre a existência de mercados de animais vivos para venda – como o de Wuhan – a cientista Cynthia Paim, aponta: “A existência desses ambientes aumenta muito a probabilidade de recombinação genética e o surgimento de uma cepa que tenha capacidade de transmissão sustentada na população humana, como está acontecendo agora”.

Com múltiplos exemplos de emergências de saúde pública conectados aos hábitos alimentares humanos, a possibilidade de eclosão de futuras pandemias se torna cada vez mais preocupante. Ainda segundo Cynthia Paim, a criação intensiva de animais para a indústria alimentícia, com suas altas densidades de animais em ambientes fechados, eleva a propensão a infecções e contribui muito para a disseminação de patógenos. O maior problema, então, não necessariamente está no consumo de carne em si, mas sim nos sistemas de produção e venda deste tipo de alimento. Contudo, são os hábitos alimentares pessoais que impulsionam essa indústria com elevadas demandas, abrindo caminhos ou, no mínimo, deixando de evitar meios propícios ao surgimento e propagação de novos patógenos à espécie humana. Dia após dia, elevamos a possibilidade de novas pandemias.

A população vem reduzindo seu consumo de carne nos últimos anos – segundo relatório da ONU sobre o mercado global alimentício, 2020 contou com um dos menores níveis de consumo de carne do século XXI, tanto por medo de contaminação quanto pelo aumento da conscientização acerca do sistema produtivo agropecuário. Entretanto, ainda vivemos longe de uma realidade com sistemas de produção sustentáveis, corretamente regulados e inspecionados. A população global como um todo também não conta com informações completas sobre a origem das proteínas animais que consomem; uma parcela significativa mal conta com segurança alimentar. Como cobrar desta população, então, disciplina e consciência ao consumir carne? Como pressionar para mudar os sistemas de criação de animais para meios mais sustentáveis e equilibrados ao meio-ambiente? Precisamos difundir informação, educar a população em seus hábitos alimentares e incentivar e possibilitar mudanças no consumo. O mundo não precisa “veganizar-se” de um dia para o outro necessariamente, mas precisamos, sim, repensar nossas escolhas ao comer e produzir carne o mais rápido possível para que evitemos, adiemos ou, ao menos, amenizemos as probabilidades de eclosão de novas pandemias.