Textos inéditos
Covid-19 e a cegueira da atualidade, de Ammanda Costa

Este texto contém spoilers.
Em 1995, José Saramago publicou a obra “Ensaio sobre a cegueira”, contando a história de uma epidemia de “mal branco”, que cegava todos aqueles que fossem infectados. Vivendo em meio à pandemia do Covid-19, 26 anos depois da publicação do livro, é praticamente impossível ter contato com a obra sem relacioná-la à realidade atual: muitas das críticas feitas por Saramago à condução da epidemia podem ser aplicadas à situação em que vivemos hoje. Entre os pontos levantados pela obra, acredito que exista uma constante, que planejo destacar nesse breve texto: a priorização do bem-estar pessoal ao bem-estar coletivo.
No início da obra, quando o número de pessoas infectadas com o mal branco ainda era bastante reduzido, é notável a falta de empatia e cuidado da sociedade para com elas. Os infectados eram reunidos e colocados em um espaço isolado – um manicômio vazio – sem contato com o mundo exterior nem suporte algum de autoridades ou outras organizações da sociedade. Durante a pandemia atual, o descaso com os doentes foi muito comum em alguns países – no Brasil, não se pode esquecer que o presidente se referiu à pandemia como “uma gripezinha” e chegou a ironizar o número de mortes, com frases como “eu não sou coveiro” e “a gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”. Mais que afirmações polêmicas, o desinteresse em medidas como a adoção de lockdowns e a compra de vacinas foram medidas representativas dessa falta de cuidado com a população, que ativamente levaram a inúmeras infecções e mortes que poderiam ter sido evitadas.
No decorrer do livro, é possível ver como, mesmo vivendo a adversidade que assola toda a sociedade naquele momento, ainda existem aqueles que preferem tentar explorar outros em vez de contribuir para uma organização mais igualitária e benéfica à comunidade. No manicômio, alguns dos cegos se organizam para roubar os outros e controlar toda a comida que era recebida, além de abusar das mulheres que lá estavam. Em nossa realidade atual, acredito que essa exploração não seja tão escancaradamente agressiva, mas ela está, sem dúvidas, presente. Um exemplo é o fato de que a crise econômica em que o mundo como um todo se inseriu serviu como instrumento para o aumento da concentração de riquezas em poucas mãos: enquanto mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo entraram na pobreza durante a pandemia, até julho deste ano, os bilionários aumentaram sua riqueza em mais de 5.5 trilhões de dólares. Vemos, aqui, o princípio de impedir que recursos sejam melhor distribuídos a favor de beneficiar uma parcela específica da população.
Mais adiante na obra, é notável o estado de caos generalizado em que a sociedade se encontra com a evolução da doença. Felizmente, a pandemia do Covid-19 não nos trouxe a uma situação tão apocalíptica quanto a mostrada no Ensaio; mas ainda é interessante ver como a obra apresenta os esforços empreendidos pelas pessoas em manter sua sobrevivência, mesmo em um mundo tão desordenado. Aqui, num mundo onde todos estão doentes, o egoísmo continua presente: a vizinha de uma das personagens, por exemplo, cria galinhas e não as divide com o grupo, quando ele a encontra. No entanto, surge uma reflexão: essas ações são, sim, uma priorização do individual ao coletivo, mas há algo mais que pudesse ser feito pela comunidade? Se todas as galinhas acabassem, o que os personagens poderiam fazer para encontrar comida depois? Se todas as vacinas excedentes em países ricos fossem doadas, o risco de faltar não continuaria existindo? É justo priorizar a si mesmo quando não é possível garantir que as necessidades de todos serão satisfeitas?
Acredito que em situações tão adversas quanto a que vivemos atualmente é possível ver certa solidariedade: hoje, existem diversas iniciativas coletivas para lidar com a pandemia, como a organização comunitária feita em Paraisópolis (que acabou sendo prejudicada pela falta de recursos), ou até mesmo as ações de conscientização de indivíduos nas redes sociais, como o PFF para Todos. Mas os interesses individuais quase sempre ficam em primeiro plano na lista de prioridades, seja em escala pessoal ou nacional, e isso não me dá muita esperança para um futuro colaborativo, em que a cooperação seja a regra. Na obra de Saramago, a epidemia de cegueira chega ao final da mesma forma em que teve seu início: sem aviso prévio, cada um dos personagens do livro vai ganhando sua visão de volta. A alegria em ter de volta a parte da vida que tanto fazia falta é contagiante, mas a mulher do médico nota que isso não significa que a humanidade tenha sido transformada – sua última fala é “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos; cegos que, vendo, não vêem”. Infelizmente, acredito que esse também seja nosso caso na pandemia atual.
Referências: BECHARA, Victoria. Além da covid-19, moradores de Paraisópolis convivem com fome e desemprego. https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/03/18/alem-da-covid-19-m oradores-de-paraisopolis-convivem-com-fome-e-desemprego.htm>
COLLINS, CHUCK. Global Billionaires See $5.5 Trillion Pandemic Wealth Surge. https://ips-dc.org/global-billionaires-see-5-5-trillion-pandemic-wealth-surge/ FOLHA DE SÃO PAULO. Relembre o que Bolsonaro já disse sobre a pandemia, de gripezinha e país de maricas a frescura e mimimi. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/03/relembre-o-que-bolsonaro-ja-disse-sobr e-a-pandemia-de-gripezinha-e-pais-de-maricas-a-frescura-e-mimimi.shtml> GIRO LATINO. Coronavírus na América Latina: levantamento semanal (28/8/21-3/9/21). https://girolatino.substack.com/p/coronavirus-na-america-latina-levantamento-24d PANCINI, Laura. Site “PFF Para Todos” mostra que máscara que protege também é acessível.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. 19a . ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2001. STRAUSS, Daniel. Get the vax, win a shotgun: US states get creative to encourage vaccination.