Textos inéditos
Da elite aos trabalhadores: como têm sido o avanço demográfico da Covid-19 desde sua chegada ao Brasil, de Yasmin Carvalho Gomes Santos

“O Ministério da Saúde confirmou, nesta quarta-feira (26/2), o primeiro caso de novo coronavírus em São Paulo. O homem de 61 anos deu entrada no Hospital Israelita Albert Einstein, nesta terça-feira (25/2), com histórico de viagem para Itália, região da Lombardia.” (UNA-SUS, 27 de Fevereiro de 2020)
O primeiro caso de Covid-19 no Brasil começou assim, espalhado pelos brasileiros que foram ao exterior e passaram o carnaval à beira do Mediterrâneo desfrutando da boa comida e paisagem italiana.
Não é difícil lembrar, também, dos comentários logo que a pandemia chegou ao Brasil. Era uma “doença de rico” e por mais que outros países mostrassem o quão arrebatadora ela poderia ser, no início, o que prevaleceu foi a sua primeira impressão, desembarcando na ala internacional de Guarulhos.
Em menos de um mês, no entanto, vimos que não era bem assim. Já nas primeiras semanas de março, diversos jornais brasileiros estampavam em seus sites o avanço da covid para muito além daqueles que tinham frequentado aeroportos nos últimos dias e, em 17 de março de 2020, a primeira vítima brasileira foi uma carioca, empregada doméstica, que ao contrário dos seus patrões recém chegados da Itália, não sobreviveu à falta de ar e complicações da doença.
A alta transmissibilidade, um dos fatores mais marcantes do covid-19, levou o mundo inteiro ao distanciamento social e lockdown de diversas cidades. Apesar de conflitos políticos envolvendo o lockdown completo no Brasil, o que se sucedeu a partir de março foi a reclusão de boa parte da população.
Mas o Brasil, em si, não parou. Mercados continuaram funcionando,e, para aqueles que não deixaram as suas casas e seguiram as recomendações, existiu uma rede de suporte enorme, desde entregadores de aplicativo, caminhoneiros, funcionários das áreas de alimentação, além, claro, dos funcionários da área de saúde. Mas o que esses primeiros têm em comum é o pertencimento a uma classe social que não teve escolha se não por sua vida em risco saindo de casa, ou seguindo as orientações e tendo sua renda ameaçada.
Numa reportagem de abril de 2021 do El País, uma pesquisa do Laboratório do Futuro da Coppe/Universidade Federal do Rio de Janeiro, mapeou os riscos, no início da pandemia, por área de atuação caso nenhuma medida fosse tomada. Os trabalhadores do comércio tinham uma chance 53% maior de contrair o vírus do que o resto da população, contra os 50% dos trabalhadores da área de saúde.
Outro levantamento interessante foi publicado no Le Monde Diplomatique em Dezembro de 2020. Também fazendo o paralelo entre as situações de trabalho e como algumas profissões sofreram mais com o “lockdown” e isolamento social, e o texto de Fernando Mendonça Heck e Lindberg Nascimento Júnior traz esses impactos sobre os trabalhadores de frigoríficos. A função, além de ser considerada essencial durante a pandemia e, portanto, não ter parado, já era extremamente exaustiva e tinha alta rotatividade de funcionários por conta da alta demanda. No Brasil, cerca de 20% dos trabalhadores da área testaram positivo e em alguns lugares do mundo como em Bangladesh o vírus chegou a contaminar mais de metade dessa classe.
Por um espaço de tempo ainda ouvimos falar da covid-19 como uma doença democrática, mas não demorou até que essa ideia caísse. Nos momentos de maior pico da pandemia, em que apenas os serviços essenciais se mantiveram abertos, quem mais sofreu foram pessoas com baixa renda e aqueles que não puderam deixar de trabalhar. A desigualdade no Brasil teve um dos maiores picos durante a pandemia, se tornando um dos epicentros da pandemia na América Latina (DALLARI, 2020) e fica inegável que isso teve uma influência importante na demografia mais afetada durante a pandemia.
Referências:
ALMEIDA, Pauline. Fiocruz relata perfil das vítimas da Covid-19 e desigualdades na pandemia. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/pesquisa-da-fiocruz-relata-perfil-das-vitimas-da-covid-19-e-desigualdades-no-ini/
DALLARI, Pedro. A Crise do Coronavírus não é democrática. Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/a-crise-do-coronavirus-nao-e-democratica/
DE MELO, Maria Luisa. Primeira vítima do RJ era doméstica e pegou coronavírus da patroa. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/19/primeira-vitima-do-rj-era-domestica-e-pegou-coronavirus-da-patroa.htm
JORNAL NACIONAL. Pandemia agrava problema crônico do Brasil: a desigualdade econômica. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/02/09/pandemia-agrava-problema-cronico-do-brasil-a-desigualdade-economica.ghtml
MENDONÇA HECK, Fernando; NASCIMENTO JÚNIOR, Lindberg. Covid-19 na trilha do trabalho precário e vulnerável: o caso dos frigoríficos. Disponível em: https://diplomatique.org.br/covid-19-na-trilha-do-trabalho-precario-e-vulneravel-o-caso-dos-frigorificos/
SOARES, Marcelo. Mortes entre caixas, frentistas e motoristas de ônibus aumentaram 60% no Brasil no auge da pandemia. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-05/caixas-frentistas-e-motoristas-de-onibus-registram-60-a-mais-de-mortes-no-brasil-em-meio-ao-auge-da-pandemia.html