Textos inéditos
O Amor nos Tempos da Covid-19, de Natan Zanini Falconi

Na última terça-feira, enquanto assistia à primeira aula do curso de Saúde Global, ministrado pela professora Deisy Ventura, saltou-me à memória um trecho de um dos meus livros preferidos: “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez. Nele, o narrador afirma que “No fim das contas todo mundo sabia que os tempos do cólera não haviam terminado, apesar dos alegres informes das autoridades sanitárias. Quanto ao navio, não havia problema. Transferiu-se a pouca carga embarcada, aos passageiros se disse que havia um percalço de máquinas, e foram passados de madrugada para um navio de outra empresa. Se coisas assim se faziam por tantas razões imorais, e até indignas, Florentino Ariza não via por que não seria lícito fazê-las por amor.” (p. 425).
Quando tive contato com a obra pela primeira vez, em março deste ano, não pude deixar de relacioná-la com a pandemia de Covid-19. À primeira vista, os elementos ficcionais apresentados por Márquez que mais se aproximam da nossa realidade são: o descaso das autoridades, o negacionismo em relação à ciência e, principalmente, as oportunidades de corrupção criadas por uma crise desta dimensão – afinal, não é como se a morte de centenas de milhares de brasileiros fosse servir como impeditivo moral para uma prática tão consolidada em nosso país. Uma única aula foi suficiente, no entanto, para que eu percebesse que essa situação não se limita à Covid-19 e muito menos ao cenário brasileiro. Ao contrário, está presente na Saúde Global como um todo, e na forma como herdamos da medicina colonial a busca pela “bala mágica”, expressão frequentemente utilizada por João Biehl, pioneiro nos estudos críticos da Saúde Global e uma de suas mais importantes referências.
A estratégia da “bala mágica” resume-se a encontrar soluções pontuais e em muitos aspectos milagrosas para um problema, mas sem provocar mudanças estruturais na forma como encaramos a saúde, sobretudo a saúde pública. Nesse sentido, podemos questionar até que ponto as próprias vacinas contra a Covid-19, a despeito de sua absoluta importância no momento em que nos encontramos, não representam também essa tendência. Afinal, bastou que os adultos fossem vacinados com a primeira dose para que o estado de São Paulo anunciasse a reabertura sem restrições dos bares e restaurantes, para não mencionar os “alegres informes” do presidente Jair Bolsonaro, que comemora o suposto fim da pandemia desde o ano passado, quando não havíamos sequer atingido o maior pico. Enquanto apostamos todas as nossas fichas em soluções milagrosas e no desenvolvimento de novas tecnologias, nos afastamos dos reais problemas de Saúde Global e dos verdadeiros mecanismos de prevenção, como direito à moradia, acesso a saneamento básico, trabalho digno, investimento em saúde e formação de profissionais capacitados e combate às desigualdades sociais, para citar apenas alguns. Ainda no livro, afirma-se que “O cólera se encarniçou muito mais contra a população negra, por ser a mais numerosa e pobre, mas na realidade não teve contemplação com cores nem linhagens. Parou de chofre como havia começado, e nunca se soube o número de suas vítimas, não porque fosse impossível estabelecê-lo, e sim porque uma de nossas virtudes corriqueiras era o pudor das próprias desgraças.” (p. 143).
Nesse outro fragmento, torna-se evidente que tanto na epidemia de cólera que assolou diversas cidades latino-americanas no final do século XIX quanto na atual pandemia de Covid-19 as pessoas negras e pobres são as que mais morrem. Sobre isso, vale destacar dois pontos principais que também foram trabalhados em aula. Primeiro, a importância das determinantes sociais de saúde, muito utilizadas pelo historiador peruano Marcos Cueto. Ou seja, a percepção de que a saúde vai além do aspecto biológico, recebendo também grande influência das redes comunitárias, condições de trabalho e desigualdades sociais. Segundo, escancara as consequências de uma Saúde Global que, durante séculos, foi pautada pela busca de “balas mágicas”, sem necessariamente atingir a raiz dos problemas, diminuir a carga global das doenças e melhorar os indicadores de saúde e sociais das populações.
Assim como o cólera no livro, os tempos da pandemia ainda não terminaram, mas fica cada vez mais claro que a ameaça não se restringe à Covid-19 e suas variantes, estendendo-se também para futuras doenças que podem – e tudo indica que devem – surgir. Portanto, a pergunta que devemos fazer é: estaremos preparados para lidar com elas ou esperaremos que nos devastem para sair em busca de inovações tecnológicas e vacinas compatíveis?