Textos inéditos
O Som do Silêncio e a discussão sobre implantes cocleares a partir do surdo, de Victor Ferreira Caruzzo

“Todos aqui compartilham da crença de que ser surdo não é uma deficiência, algo pra se consertar.” – Joe (Paul Raci) em O Som do Silêncio (2019)
A sociedade como um todo ainda enfrenta grandes dificuldades em entender a comunidade surda como tal, é comum que se olhe para a surdez como um “defeito” que precisa ser arrumado. É com supostamente boas intenções que médicos ao longo dos anos vêm desenvolvendo métodos cada vez mais sofisticados de mitigar os efeitos da surdez e até, em alguns casos, combate-la. Contudo, no fim, é necessário se perguntar: a comunidade surda realmente deseja isso?
É dessa discussão que trata o filme O Som do Silêncio, no qual o protagonista Ruben Stone (Riz Ahmed) é obrigado a interromper sua carreira musical devido a uma súbita perda de audição. O baterista enfrenta as dificuldades psicossociais da surdez enquanto aprende a se entender dentro da comunidade ao se juntar a um centro de reabilitação para pessoas surdas, chefiado pelo personagem Joe. Nesse lugar, o personagem de Riz Ahmed se depara com um grupo que, de forma geral, tem uma postura otimista quanto à surdez, a enxergam como algo positivo, algo com que ele tem dificuldade de lidar.
Ao longo de todo o filme, Ruben aprende a lidar com a surdez desde um ponto de vista mais prático, ao aprender uma nova língua, como também imerge na cultura e descobre a imensidão da comunidade surda. Contudo, ainda que nos seja apresentado um arco clássico de superação, o protagonista convive constantemente com a resistência à sua nova realidade, e vê a surdez como algo que pode ser passageiro. Diferente de seus companheiros, ele não consegue encarar sua condição com um viés positivo, e tem como objetivo final realizar uma cirurgia de implante coclear em uma tentativa desesperada de voltar a como sua vida era antes.
É mais ao fim do filme que, em uma resolução abrupta, ele decide abrir mão de tudo e fazer a operação, e é neste momento que a história da uma guinada em um tom mais crítico e sombrio, Ruben não consegue se sentir o mesmo após os implantes, nem tampouco consegue resgatar sua vida. Pelo contrário, ao voltar para o centro de reabilitação, Joe expressa um profundo desapontamento, e pede para que o ex-baterista se retire da casa antes que seus colegas o pudessem encontrar. O ponto principal aqui é que, a tentativa de se livrar desesperadamente da surdez representava algo que, não só aquele grupo local rejeita, mas a comunidade surda como um todo: a negação de sua suficiência como grupo social.
Como dito inicialmente, é ainda difícil para a população surda ser enxergada como um grupo social unificado. A visão individualista de deficiência, colocando o surdo como alguém que está uma prateleira abaixo em um recorte social que pertence, reduz a riqueza de sua história como unidade e desconsidera todo o processo histórico de conquista de um conjunto, além de fundamentar-se, essencialmente, em argumentos de base eugenista que entendem determinado modelo de corpo humano como o “modelo ideal” (SPARROW, 2005).
Sua comunidade, como qualquer outra, é descrita por relações sociais únicas, e possui seu próprio retrospecto de histórias e luta por reconhecimento. Possuem língua própria de surgimento natural, cujo entendimento como idioma oficial vem sendo uma batalha travada por décadas, e já é, em diversas partes do mundo, acatada como forma legal de comunicação. Dispõem também cultura própria, que varia conforme fatores de local e época, mas são, invariavelmente, delimitadas pelas experiências destas pessoas, que interagem ao longo do tempo entre si em determinado local. Possuem visões de mundo próprias e especificidades que caracterizam, inquestionavelmente, sua construção como sociedade (LICHTIG, 2003). É a partir disto que se deve aprofundar o questionamento, a quem beneficia a tentativa incessante de apagar o que caracteriza este grupo como tal?
É tendo isso em mente que eclode a discussão acerca dos implantes cocleares e a “cura” para a surdez, objetos do filme. Uma parcela significativa da comunidade surda global entende que combater a surdez pode ser entendido como genocídio, visto que seu resultado é a redução de um povo e de sua cultura (LICHTIG, 2003). Sob o ponto de vista ético, seu uso durante a infância, que é bastante frequente, é controverso ao conceder aos pais o poder de decidir qual cultura seu filho deverá seguir, o submetendo a uma operação invasiva e determinante por toda a vida, muitas vezes colocando a criança em um limbo cultural, um meio termo em que não faz parte de nenhum dos “dois mundos”. O foco em adaptar os surdos ao mundo e não o contrário também criaria uma condição de mudança necessária, em que não haveria substância para que houvesse a escolha de permanecer em uma comunidade que se tornaria cada vez mais isolada. Ademais, a continuidade do desenvolvimento deste tipo de tecnologia pode acentuar ainda mais as desigualdades sociais, já que são custosas e pouco acessíveis (SPARROW, 2005).
Por fim, é importante ressaltar que este texto não se propõe a tomar partidos na discussão tendo em vista que eu, como autor, não acredito possuir conhecimento suficiente para formular uma opinião. É em função disso que se torna necessário fazer o que é o objetivo aqui: trazer para a luz essa discussão que por muitas vezes é menosprezada, especialmente sob o ponto de vista do “oprimido”, que é sobre quem se tomam as ações.
Referências:
LICHTIG, Ida et al. O implante coclear e a comunidade surda: desafio ou solução? Disponível em: <https://www.researchgate.net/profile/Felipe-Barbosa-6/publication/267831344_O_IMPLANTE_COCLEAR_E_A_COMUNIDADE_SURDA_DESAFIO_OU_SOLUCAO/links/54ffbc1c0cf2741b69f9724e/O-IMPLANTE-COCLEAR-E-A-COMUNIDADE-SURDA-DESAFIO-OU-SOLUCAO.pdf>
SPARROW, Robert. Defending Deaf Culture : The Case of Choclear Implants. Monash University. Disponível em: <https://researchmgt.monash.edu/ws/portalfiles/portal/252777366/3227796_oa.pdf>