Textos inéditos
Pandemia na Era da Desinformação: Como o papel e a reputação da mídia foram diretamente afetados durante a pandemia no Brasil, de Camila Smaniotto Biazioli

Dentre os países mais afetados pela pandemia do Coronavírus, o Brasil tem enfrentado a maior crise do século ao mesmo tempo em que padece sob uma administração de extrema-direita que, desde muito antes, se mostrou ser mais uma inimiga da saúde pública. Desde março de 2020, a mobilização midiática a favor ou contrária ao posicionamento adotado pelo governo federal tem causado uma enorme polarização no país. Em um momento em que o acesso à informação científica de qualidade é essencial para evitar a escalada dessa que se mostrou uma enorme tragédia, a manipulação de dados e a proclamação de opiniões infundadas e criminosas pela maior autoridade do poder executivo do país colocam em risco a vida de milhões de brasileiros.
Nesse contexto, os veículos de mídia mais influentes do país, que se propuseram – não sempre, mas em grande parte das vezes – a veicular fatos e criticar as falácias proferidas pela administração, foram carregados pela onda de polarização política que assola o país. Um levantamento do Reuters Institute¹ apontou que, apesar da tendência da mídia tradicional em adotar uma postura mais científica e próxima das recomendações e dados oferecidos pela Organização Mundial de Saúde, canais de televisão aberta, geralmente mais propensos a adotar uma perspectiva positiva em relação às proclamações do presidente, vêm sendo considerados os “mais confiáveis” pelos brasileiros de forma geral. Conforme o gráfico abaixo, os veículos votados como de maior confiança na veiculação de informações durante a pandemia foram: Jornal do SBT, Record News e Band News; dentre os com menor nível de confiança, foram elencados: Globo News, O Globo, Revista Veja e a Folha de S. Paulo.

Fica evidente, portanto, a manipulação da mídia mais acessível à população brasileira (essencialmente, a TV aberta e gratuita) como ferramenta para a propagação de uma ideologia neoliberal e negacionista. No artigo “De líder a paria de la salud global: Brasil como laboratorio del ‘neoliberalismo epidemiológico’ ante la Covid-19”,² Ventura e Bueno apontam que essa estratégia institucional favorável à propagação e prolongamento da pandemia da Covid-19 expressa radicalmente essa vertente do neoliberalismo, recorrendo a medidas cientificamente questionáveis para o suposto “enfrentamento da pandemia” e disseminando desinformação a respeito do vírus.
A mídia – acompanhada das redes sociais, como apontado no levantamento da Reuters – teve um papel central em toda essa orquestra: ao mesmo tempo em que os veículos tradicionais foram altamente descredibilizados, meios que demonstravam claro apoio às políticas do governo federal passaram a ganhar ainda mais espaço na casa e mente dos brasileiros, gerando uma onda de radicalização. Em 2020, foram registrados 428 ataques verbais e físicos a jornalistas, por conta da publicação de conteúdos que criticavam as medidas e posicionamentos adotados pelo governo durante a pandemia. Destes, 175 teriam sido proferidos pelo próprio presidente³.
Além de afetar imensamente a resposta brasileira à pandemia, visto que milhões de pessoas foram imersas na concepção de que o vírus era somente uma “gripezinha”, esse movimento abalou as bases da transparência e busca pela veracidade tão necessárias ao jornalismo, especialmente em um momento como esse. Enquanto deveríamos estar observando uma mobilização eficiente e à altura da situação para o combate a pandemia, vemos o neoliberalismo epidemiológico fazendo uso de todos os meios possíveis para alcançar sua agenda.
Encerro com uma fala que me marcou recentemente, algo na linha de: “queria saber mais sobre a situação do Brasil na pandemia, mas não consegui me convencer de que o site e os materiais divulgados pelo Ministério da Saúde fossem confiáveis o suficiente”. Fica, portanto o questionamento: fora do meio acadêmico, qual perspectiva possui o brasileiro na busca por informação?
Referências
¹ Reuters Institute for the Study of Journalism, University of Oxford. 2021 Digital News Report: Brazil. Disponível em: https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2021/brazil ² Ventura, Deisy de Freitas Lima, & Bueno, Flávia Thedim Costa. (2021). De líder a paria de la salud global: Brasil como laboratorio del “neoliberalismo epidemiológico” ante la Covid-19. Foro internacional, 61(2), 427-467. https://doi.org/10.24201/fi.v61i2.2835 ³ LatAm Journalism Review. Attacks on journalists explode in Brazil in 2020 and most of them come from President Bolsonaro. Disponível em: https://latamjournalismreview.org/articles/attacks-journalists-brazil-2020-bolsonaro/