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Textos inéditos

Saúde feminina e endometriose: quando a medicina não foi feita para você, de Gabriela Molina Consolo

Autoria: Gabriela Molina Consolo

Saúde feminina e endometriose: quando a medicina não foi feita para você

Com 21 anos, um médico ginecologista olhou fundo nos meus olhos e me disse que sentir dor era normal. Minha primeira reação foi me sentir traída: há uma relação de confiança entre profissional e paciente; é necessário que exista, para que você possa delegar a um quase desconhecido o cuidado da sua saúde reprodutiva.

Já fazia algum tempo que a medicina me fazia sentir menos humana, mais pedaço de carne. Tudo que importava era eu estar “saudável” para um dia – como diria Brás Cubas – transmitir a alguma criatura o legado de nossa miséria (para os menos poéticos, procriar). Sintomas considerados secundários como dor, desconforto, alterações de humor, sangramentos excessivos e qualquer outra coisa que estivesse arruinando minha vida diária eram desimportantes. Com 19 anos, uma pílula anticoncepcional me dava sintomas de depressão e a recomendação médica foi continuar tomando.

Clare Wenham descreve essa experiência em Feminist Global Health Security, quando coloca que as discussões globais caem na armadilha de equalizar experiências de saúde ligadas a gênero com saúde reprodutiva. Para ela, há a reprodução de suposições paternalistas sobre as mulheres, reduzindo-as à sua função biológica e, fundamentalmente, obscurecendo o efeito desigual de questões de saúde sobre as mulheres biologicamente.

Segundo a OMS, a endometriose afeta cerca de 10% (190 milhões) das pessoas biologicamente do sexo feminino em idade reprodutiva no mundo. Ninguém sabe a causa, e ninguém sabe a cura. Se criássemos o País da Endometriose, ele seria o oitavo mais populoso do mundo.

A mesma página da OMS também diz que a endometriose é subdiagnosticada e diagnosticada tardiamente porque ela tem sintomas “genéricos” – traduz-se: dor. Especialmente durante a menstruação e em relações sexuais (dois tópicos nada tabu!). Isso gera dois tipos de atraso no diagnóstico, como descrito na revisão feita por Lorraine Culley e colegas “The social and psychological impact of endometriosis on women’s lives: a critical narrative review”. O primeiro é o atraso para que pacientes procurem ajuda, já que há a noção – reforçada pela natureza social privada e vergonhosa da menstruação – de que aguentar cólicas é normal. De que sentir dor é normal. O sofrimento, diz o patriarcado, faz parte de “ser mulher”. É o fardo de Eva por ter seduzido Adão a comer o fruto proibido, e ele se traduz a todo momento na vida feminina: na depilação, no salto alto, no bebê com as orelhas furadas e – o fardo original – no parto.

O segundo atraso no diagnóstico é clínico. Quando a mulher cis ou o homem trans é atendido – nem sempre, inclusive, por queixas específicas; frequentemente a endometriose é descoberta em “check-ups” -, a literatura mostra que é comum encontrarem resistência e descrédito. Quando atendidos por clínicos gerais, muitas vezes não são encaminhados a ginecologistas. Tais pacientes sofrem “inseguranças diárias”, como coloca Wenham ao descrever a necessidade de reconhecermos a influência da violência estrutural de gênero nas políticas de saúde pública.

Com o diagnóstico, pela minha própria experiência, pouco muda. Há um tratamento principal: não menstruar. A endometriose é causada por partes do tecido do endométrio que saem do útero e se espalham, especialmente nos ovários e no exterior do útero, podendo também impactar órgãos como a bexiga e o intestino. Há um risco real de infertilidade – tanto pelos próprios cistos hemorrágicos juntando ligamentos e bloqueando o caminho do óvulo, por exemplo, quanto pela possível necessidade de cirurgia radical esterilizante caso se espalhem muito.

O processo de formação de cistos ocorre durante a menstruação, então impedi-la é entendido como essencial. Aí entram os anticoncepcionais, e com eles, outra miríade de problemas. A criação da pílula foi uma revolução sexual e social, dando à mulher a liberdade sobre seu corpo. Para mim? É uma prisão. Da mesma forma que a endometriose e outras doenças ligadas à mulher têm pouquíssimo investimento em pesquisa, tratamentos e exames sofrem o mesmo destino. Todos nos lembramos do anticoncepcional masculino que foi descartado por causa de efeitos colaterais, enquanto os femininos têm um risco aumentado comprovado de trombose (entre outros problemas), e isso é simplesmente normalizado.

O pior de tudo, eu diria, é a incerteza. Ir ao ginecologista parece ir à terapia às vezes. É comum me oferecerem vários caminhos e falarem “mas o que você quer fazer?”, com pouca ou nenhuma orientação sobre o que é mais indicado. Com o desconhecimento da ciência sobre a saúde feminina, parece que você tem que ter um PhD em ginecologia para conseguir guiar o seu tratamento. Como não há cura, todo tratamento é uma loteria. Pode funcionar, ou não. E a escolha? Toda sua. Você é dona do seu futuro! É desesperador. E toda opção é incrivelmente invasiva.

Como demonstrado por Sarah E Davies e suas colegas em “Why it must be a feminist global health agenda”, a desigualdade de gênero é frequentemente informal e privada. São necessárias mudanças formais e informais nas instituições de governança de saúde mundial para que a pesquisa e as metodologias sejam feministas, indo além de métodos positivistas e pensando em etnografia, observação participativa e, não menos importante, em abrir espaços para que as histórias das pessoas sejam ouvidas.

A saúde é uma esfera essencial para alcançar a verdadeira igualdade de gênero. Desde o acesso à saúde (uma a cada quatro brasileiras já faltou à escola por não ter absorventes), até a qualidade dessa saúde, que perpassa questões econômicas (mulheres recebem mais de 25% a menos do que homens, enquanto emprego formal ainda é exceção entre pessoas trans) e de conhecimento: é necessário que governos levem a sério a vida da mulher. E não só enquanto instrumento de reprodução, mas enquanto um ser humano com uma vida e ambições próprias. Enquanto uma pessoa digna de qualidade de vida, e não só de sobreviver. De ter saúde, e não só de não ter doença.

Livre, saudável, e sob controle do próprio corpo. Esses dias, o México descriminalizou o aborto. É o tipo de notícia que me faz querer abraçar minhas companheiras e companheiros e dizer: o caminho é longo, mas nós somos fortes. Às vezes cansa, mas somos. Somos fortes.

Referências

BENETTI, Estela. Diferença salarial entre homens e mulheres na mesma função pode gerar multa. NSC Total. 1 abril 2021. Disponível em: <https://www.nsctotal.com.br/colunistas/estela-benetti/diferenca-salarial-entre-homens-e-mulheres-na-mesma-funcao-pode-gerar>.

COLOMBO, Silvia. Suprema Corte do México descriminaliza o aborto no país. Folha de S. Paulo. 7 set. 2021. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/suprema-corte-do-mexico-descriminaliza-o-aborto-no-pais.shtml>.

COX, H.; SKI, C.; WOOD, R; SHEAHAN, M; Endometriosis, an unknown entity: the consumer’s perspective. Int J Consum Stud 2003a;3:200–209.

COX, H; HENDERSON, L; ANDERSEN, N; CAGLIARINI, G; SKI, C. Focus group study of endometriosis: struggle, loss and the medical merry-go-round. Int J Nurs Pract 2003b;1:2 – 9.

CULLEY, L et al. The social and psychological impact of endometriosis on women’s lives: a critical narrative review. Human Reproduction Update, Vol 19, Edição 6, Páginas 625–639. Novembro/Dezembro 2013.

DAVIES, S. E et al. Why it must be a feminist global health agenda. Viewpoint, Vol 393, Edição 10171, Páginas 601-603, Fevereiro 2019.

DEMARTINI, Marina. Por que os testes do anticoncepcional masculino foram suspensos. Veja Saúde. 7 nov. 2016. Disponível em: <https://saude.abril.com.br/medicina/por-que-os-testes-do-anticoncepcional-masculino-foram-suspensos/>.

ENDOMETRIOSIS. World Health Organization, 2021. Disponível em: <https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/endometriosis>.

FERREIRA, Letícia. Emprego formal ainda é exceção entre pessoas trans. Folha de S. Paulo. 29 jan. 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/01/emprego-formal-ainda-e-excecao-entre-pessoas-trans.shtml>.

FILIPPE, Marina. Always: 1 a cada 4 mulheres faltou a aula por não poder comprar absorvente. Exame. 3 maio 2021. Disponível em: <https://exame.com/marketing/always1-a-cada-4-mulheres-faltou-a-aula-por-nao-poder-comprar-absorvente/#:~:text=Segundo%20a%20pesquisa%2C%20no%20Brasil,negativamente%20o%20seu%20rendimento%20escolar>.

WENHAM, C. Feminist Global Health Security. Oxford University Press, 2021.